Gloucestershire, domingo, 9 de agosto de 1999
(continuação)
Viva! Eu sou a melhor amiga do mundo!
Valeu a pena o caos, o drama, Renata no banco de trás do carro dizendo que eu estava sacudindo Emily demais, três paradas na estrada para trocar fraldas e limpar bundas, um retorno ao restaurante para pegar uma boneca esquecida, uma discussão com a garçonete que não avisou que o sanduíche da Renata tinha bacon, várias crises existenciais porque Renata havia comido um pedaço de porco, ainda que inadvertidamente. Digo, Singe ficou feliz!!! Mais, ficou completamente exultante por perceber que ela não é a pária da turma, ainda que três em quatro convidadas estivessem com uma tromba enorme, e que o os três hóspedes restantes fossem tão pequenos que, para eles, não fazia diferença estar em Gloucestershire ou na Faixa de Gaza.
Fomos as primeiras a chegar, e Singe veio correndo em direção ao carro, pulando à nossa volta, dizendo que estávamos lindas, que os gêmeos estavam lindos, que Emily estava linda, que fazia um dia lindo, que havia preparado um quarto lindo para nós.
-Vamos ficar no mesmo quarto? – Renata perguntou, quase deixando Emily cair no chão.
-Tem problema? É que a casa está em obras.
-Você saiu de uma casa em obras para ficar em uma casa em obras? – Renata falou, me lançando um olhar assassino.
-Mas veja a natureza! – Eu disse, histérica, com medo de partir o coração exultante da Singe. – Você adora, natureza, Renata!
-E eu arrumei para vocês um quarto inteiramente sem poeira. – Singe emendou. – E, até o final da semana, o quebra-quebra já vai ter terminado e eu posso colocá-las em quartos separados.
-Quebra-quebra?! – Renata repetiu, e vi que um de seus pés deu um passo para trás, suspeitamente na direção da porta ainda aberta do carro.
-Venham, eu vou mostrar! – Singe, sem noção, nos puxou. Pensei que fôssemos entrar na casa, mas não. Demos a volta pela lateral e, de repente, estávamos em um minúsculo chalé nos fundos da mansão.
-É a casa do caseiro, mas não se preocupe. Ele não está.
-Ah, que ótimo – disse Renata, correndo os olhos pelo quadradinho minúsculo onde Singe havia apertado três berços e uma cama de casal.
-E aqui vocês vão ter sua própria cozinha, para esquentar as mamadeiras! – Ela quase bateu palmas.
-Hum. Onde? – Renata perguntou.
-É um banheiro conversível! Não é genial? – Singe nos mostrou outro quadrado de dimensões ridículas, onde havia um fogareiro em cima de uma máquina de lavar, ao lado da privada e quase trepada em cima do chuveiro. Naquele momento, ouviu-se som de carro, e Singe saiu saltitante para ver quem havia chegado.
-Eu mato você, Malu! – Renata rosnou, assim que ficamos sozinhas.
-Veja o lado bom, Rê! – Exclamei, possuída por uma Poliana enlouquecida. – Vamos poder conversar até tarde!
-O choro de uma criança vai acordar as outras, ir ao banheiro será uma corrida de obstáculos, e as mamadeiras serão reprovadas em qualquer teste de higiene. Ela faz o caseiro viver aqui? Ela tinha de ser presa!
-Rê, fica zen. Lembra da natureza.
Foi fácil nos acomodar porque não dava para desfazer mala alguma, devido à falta de espaço. Em compensação, Renata começou uma longa série de corridas desesperadas para o banheiro, segundo ela porque seu corpo estava rejeitando o pedaço de porco que a filha-da-puta da garçonete a fez comer. Finalmente, consegui colocar roupa de banho e bóias nos gêmeos, Emily no carrinho, e sair do quarto claustrofóbico para encontrar minhas amigas recém-chegadas.
Kate e Anna estavam sentadas à beira da piscina, e seus óculos escuros me deram a falsa ilusão que elas estavam de bom-humor.
-Olá! – Falei, equilibrando carrinho e crianças pelo caminho que me levava a elas.
-Shhht! Não fale conosco enquanto não decidirmos se a culpa de estarmos aqui é sua ou da Singe – Kate resmungou, sem ao menos me olhar.
-Kate! – Briguei em voz baixa para que a nossa anfitriã não nos ouvisse, onde quer que ela estivesse. – É nossa amiga! Viemos para lhe dar apoio!
-Eu vim porque me prometeram que seria como Béziers, sem a neura da Sue e as brigas – Anna grunhiu.
-Quem disse isso?!
-Tá, eu disse! – Kate respondeu, impaciente. – E não me arrependo, eu estava desesperada. Além disso, a uns trinta quilômetros daqui tem algo muito parecido com vida noturna.
-Vocês são muito egoístas, viu? – Resolvi dar-lhes uma bronca antes que Singe retornasse de Deus-sabia-onde. Pena que Renata não estava junto para ouvir também. – Se vocês tivessem levado um pé na bunda do marido e fossem excluídas de todos os programas para não ter de cruzar com a nova mulher dele, a Singe faria o mesmo por vocês, e faria sorrindo! Porque, para algumas pessoas, o bem estar de uma amiga fala mais alto que a falta de vida noturna. E, quando eu precisar, sabe quem eu vou procurar? Vou procurar a Singe, pois já vi que de vocês duas não dá para esperar muito.
Fez-se um silêncio de alguns segundos, ao fim dos quais Anna finalmente falou:
-Cadê as pestes?
-Shhht! Não fala que atrai! – Kate respondeu.
Dito e feito, dali a pouco chegavam Dave e um amigo, a linda Baby Anna correndo de braços esticados e gritando “Dinda! Dinda”, e o insuportável do Josh correndo na frente, braços igualmente pedintes e também gritando “Dinda”. Abracei Baby Anna e ignorei Josh, até perceber que Singe fechava a fila, logo depois da babá.
-Adivinhem o que eu trouxe! – Singe cantarolou, nos entregando folhas de papel.
-O quê? – Perguntei, animada demais, supercompensando.
-A nossa programação!
Entregou uma folha de papel para mim, outra para Kate, uma terceira para Anna, e guardou a de Renata com carinho enquanto esta não resolvesse seu problema no banheiro. A folha dizia:
10.00/11.00 – Diversões aquáticas. Local: Piscina.
11.00 – Almoço infantil. Local: Cozinha da sede.
12.00 – Almoço adulto. Local: Sala de jantar da sede.
13.00/14.00 – Livre.
14.00/15.00 – Caminhada ecológica pela propriedade.
15.00/17.00 – Jogos. Local: Sala de estar da sede.
18.00 – Jantar infantil. Local: Cozinha da sede.
19.00 – jantar adulto. Local: Sala de jantar da sede.
A partir das 20.00 – Conversas: assuntos diversos.
Assim que Singe terminou de ler o papel em voz alta, Kate levantou a mão, como se estivesse na escola.
-Tenho de sair da piscina às onze horas?
-Não, não, não! – Singe respondeu, sorridente. – Você não leu no alto da página? O fim de semana é para a aclimatação.
-Hã?
-Adaptação.
-Ah... E o que a gente vai fazer entre dezessete e dezoito horas?
Singe olhou para sua própria folha, confusa.
-Hum... Não sei. Acho que a gente pode continuar o jogo, se estiver divertido. Ou então fazer o que quiser.
Mal ela terminou de falar, foi a vez de Anna levantar a mão.
-Tenho de esperar as vinte horas para conversar?
-Não – Singe voltou a sorrir, de uma forma como quem diz “tolinha”. – Podemos conversar enquanto fazemos as outras atividades. Mas, se não houver tempo, eu reservei um horário específico para isso, com tira-gosto e drinques.
Logo, Renata se juntava a nós, desanimada e abatida.
-Recomendo que não entrem no quarto nas próximas horas – disse ela, à guiza de cumprimento. E, pegando a folha de papel que Singe lhe estendeu, perguntou o que era aquilo.
-A nossa programação – Kate respondeu.
-Mas não vou dar detalhes agora porque estou em meio a minha diversão aquática – Anna completou.
-Eu aceito sugestões, se vocês não concordarem com alguma coisa – disse Singe, o lábio inferior já tremendo.
Ao invés de ficar de coração partido como deveria, Kate me avisou que a minha filha estava prestes a ser jogada na piscina, e eu, a única amiga verdadeira que Singe tem no mundo, não pude lhe prestar solidariedade para salvar Angela dos braços do insuportável do amigo do Dave.
Mas é maravilhoso como, de uma forma ou outra, tudo se ajeita. Dali a instantes o papo tirou o foco da programação, Renata conseguiu um remédio para diarréia, e as crianças brincavam animadas na água. Da piscina, enquanto entretinha meus bebês e os protegia dos filhos intratáveis da Singe, ouvi Anna comentar os pormenores do seu tratamento, e começar uma discussão acalorada sobre ajudar ou não instituições com câncer.
-Isso é marketing – ela dizia. – Eu já fiz dez mil doações e não preciso aparecer na televisão com ar de Lady Di, dizendo que sou uma santa porque invisto 0,0005% dos meus milhões para ajudar o próximo. Aliás, nem tenho milhões. Estou desempregada.
-Eu adoro a Lady Di – Singe protestou. – E acho muito bonito que, tendo-se muito, use-se uma parte para ajudar os outros, sim.
-Podia começar ajudando o coitado do caseiro – Renata resmungou, mas, como foi em voz baixa e ela estava perto de mim, só eu ouvi.
-Você não entendeu. Eu não disse que não me dava ao trabalho de ajudar. Só disse que é ridículo veicular sua imagem a isso. No fundo, o que você quer é aparecer.
-Eu gravei um CD para ajudar o hospital de Ife sem a menor intenção de aparecer – Kate, que ficava visivelmente alterada, cortou. – Mas se veicular meu nome aumenta as doações, por que não?
-Aumenta as vendas também.
-Isso é efeito colateral, não é o objetivo.
-Não? Pois o que realmente importa para você são aqueles animais, e eu não te vejo fazendo CDs para organizações de proteção dos bichos.
-Não gravo CDs, mas faço doações.
-Anonimamente.
-Vamos falar de sexo! – Singe disse, de um surto, para tentar mudar o assunto.
-A Renata tem um vibrador de coelho! – Uni-me, com a mesma motivação.
-Mamãe, o que é um vibrador? – Josh perguntou para Singe.
Enquanto Renata me dava um beliscão que quase arrancou a minha pele, Singe gaguejava que era um aparelho para fazer massagem no pescoço, e Dave respondia que não, era um pinto falso para mulheres encalhadas. Renata agora me odeia, mas ao menos Kate e Anna riram e fizeram as pazes.
Gloucestershire, segunda-feira, 10 de agosto de 1999
13.30 – Livre.
Meus bebês dormiram. Eles foram acordados um pouco mais cedo do que estão acostumados pelo som de furadeira na “sede”, e passaram a manhã inteira enjoados, resmungando atrás de mim. Kate falou que, se foi ruim para nós, que imaginássemos para ela, já que o quarto sendo furado era ao lado do seu.
Não pude participar da Diversão Aquática por causa do enjôo dos bebês, e porque Renata estava lá, e me proibiu de me aproximar dela. Tédio. Acho que vou ver se Renata está sozinha para poder conversar com outras pessoas.
17.30 – Buraco da Programação que Singe esqueceu de preencher.
A caminhada ecológica foi bem curta, pois Kate torceu o pé e teve de ser levada ao pronto-socorro.
-Que idéia foi essa usar salto para caminha no mato? – Anna dizia, enquanto a enfiava no carro.
-Eu sempre uso salto!
As duas saíram trocando farpas, mas Anna ligou há poucos minutos para avisar que Kate está bem, embora com o pé engessado, e que elas vão aproveitar para passear um pouco pela cidade. Fico me perguntando se Kate não fingiu a torção para escapar.
Renata está conversando com Singe. Não posso chegar perto. Saco.
23.30
Viva! Kate e Anna ainda não chegaram, mas Renata voltou a falar comigo! Bom, ela disse que não podemos conversar, mas que não há mal em nos dirigirmos palavras civilizadas como “boa noite”, “você está pisando no meu cabelo”, e “onde você enfiou o esterilizador de mamadeiras”? Com isso, Singe pôde nos levar juntas para um passeio pelo pandemônio, enquanto a pobre babá olhava aquele mundaréu de crianças.
Singe está decidida mesmo a apagar qualquer traço do Mick da sua vida. Ela se mudou para outro quarto, e vai transformar o antigo em sala de jogos. Os das crianças também vão receber nova decoração assim que eles puderem voltar para Londres (eu posso me espremer com Renata na casa do caseiro, mas as aberrações não podem ser incomodadas) e ela pensa em deixar o andar inferior mais “feminino e aconchegante”.
-Tipo o que? – Perguntei, com dificuldades para visualizar.
-Tipo rosa.
-Ai. Meu. Deus – Renata, rainha do bom-gosto, gemeu.
-Você acha que isso pode afeminar o Dave e o Josh? – Singe interpretou errado o comentário, e resolvi me apegar à bóia que ela havia me lançado.
-Ah, sim! – Respondi.
-Ah, sim! – Renata fez o mesmo.
-E o charme da casa é o seu ar rústico!
-Isso, campestre.
-Lindo demais.
Ao que Singe optou por toras de madeira.




