9 e 10 de agosto de 1999

Gloucestershire, domingo, 9 de agosto de 1999

(continuação)


Viva! Eu sou a melhor amiga do mundo!


Valeu a pena o caos, o drama, Renata no banco de trás do carro dizendo que eu estava sacudindo Emily demais, três paradas na estrada para trocar fraldas e limpar bundas, um retorno ao restaurante para pegar uma boneca esquecida, uma discussão com a garçonete que não avisou que o sanduíche da Renata tinha bacon, várias crises existenciais porque Renata havia comido um pedaço de porco, ainda que inadvertidamente. Digo, Singe ficou feliz!!! Mais, ficou completamente exultante por perceber que ela não é a pária da turma, ainda que três em quatro convidadas estivessem com uma tromba enorme, e que o os três hóspedes restantes fossem tão pequenos que, para eles, não fazia diferença estar em Gloucestershire ou na Faixa de Gaza.


Fomos as primeiras a chegar, e Singe veio correndo em direção ao carro, pulando à nossa volta, dizendo que estávamos lindas, que os gêmeos estavam lindos, que Emily estava linda, que fazia um dia lindo, que havia preparado um quarto lindo para nós.


-Vamos ficar no mesmo quarto? – Renata perguntou, quase deixando Emily cair no chão.


-Tem problema? É que a casa está em obras.


-Você saiu de uma casa em obras para ficar em uma casa em obras? – Renata falou, me lançando um olhar assassino.


-Mas veja a natureza! – Eu disse, histérica, com medo de partir o coração exultante da Singe. – Você adora, natureza, Renata!


-E eu arrumei para vocês um quarto inteiramente sem poeira. – Singe emendou. – E, até o final da semana, o quebra-quebra já vai ter terminado e eu posso colocá-las em quartos separados.


-Quebra-quebra?! – Renata repetiu, e vi que um de seus pés deu um passo para trás, suspeitamente na direção da porta ainda aberta do carro.


-Venham, eu vou mostrar! – Singe, sem noção, nos puxou. Pensei que fôssemos entrar na casa, mas não. Demos a volta pela lateral e, de repente, estávamos em um minúsculo chalé nos fundos da mansão.


-É a casa do caseiro, mas não se preocupe. Ele não está.


-Ah, que ótimo – disse Renata, correndo os olhos pelo quadradinho minúsculo onde Singe havia apertado três berços e uma cama de casal.


-E aqui vocês vão ter sua própria cozinha, para esquentar as mamadeiras! – Ela quase bateu palmas.


-Hum. Onde? – Renata perguntou.


-É um banheiro conversível! Não é genial? – Singe nos mostrou outro quadrado de dimensões ridículas, onde havia um fogareiro em cima de uma máquina de lavar, ao lado da privada e quase trepada em cima do chuveiro. Naquele momento, ouviu-se som de carro, e Singe saiu saltitante para ver quem havia chegado.


-Eu mato você, Malu! – Renata rosnou, assim que ficamos sozinhas.


-Veja o lado bom, Rê! – Exclamei, possuída por uma Poliana enlouquecida. – Vamos poder conversar até tarde!


-O choro de uma criança vai acordar as outras, ir ao banheiro será uma corrida de obstáculos, e as mamadeiras serão reprovadas em qualquer teste de higiene. Ela faz o caseiro viver aqui? Ela tinha de ser presa!


-Rê, fica zen. Lembra da natureza.


Foi fácil nos acomodar porque não dava para desfazer mala alguma, devido à falta de espaço. Em compensação, Renata começou uma longa série de corridas desesperadas para o banheiro, segundo ela porque seu corpo estava rejeitando o pedaço de porco que a filha-da-puta da garçonete a fez comer. Finalmente, consegui colocar roupa de banho e bóias nos gêmeos, Emily no carrinho, e sair do quarto claustrofóbico para encontrar minhas amigas recém-chegadas.


Kate e Anna estavam sentadas à beira da piscina, e seus óculos escuros me deram a falsa ilusão que elas estavam de bom-humor.


-Olá! – Falei, equilibrando carrinho e crianças pelo caminho que me levava a elas.


-Shhht! Não fale conosco enquanto não decidirmos se a culpa de estarmos aqui é sua ou da Singe – Kate resmungou, sem ao menos me olhar.


-Kate! – Briguei em voz baixa para que a nossa anfitriã não nos ouvisse, onde quer que ela estivesse. – É nossa amiga! Viemos para lhe dar apoio!


-Eu vim porque me prometeram que seria como Béziers, sem a neura da Sue e as brigas – Anna grunhiu.


-Quem disse isso?!


-Tá, eu disse! – Kate respondeu, impaciente. – E não me arrependo, eu estava desesperada. Além disso, a uns trinta quilômetros daqui tem algo muito parecido com vida noturna.


-Vocês são muito egoístas, viu? – Resolvi dar-lhes uma bronca antes que Singe retornasse de Deus-sabia-onde. Pena que Renata não estava junto para ouvir também. – Se vocês tivessem levado um pé na bunda do marido e fossem excluídas de todos os programas para não ter de cruzar com a nova mulher dele, a Singe faria o mesmo por vocês, e faria sorrindo! Porque, para algumas pessoas, o bem estar de uma amiga fala mais alto que a falta de vida noturna. E, quando eu precisar, sabe quem eu vou procurar? Vou procurar a Singe, pois já vi que de vocês duas não dá para esperar muito.


Fez-se um silêncio de alguns segundos, ao fim dos quais Anna finalmente falou:


-Cadê as pestes?


-Shhht! Não fala que atrai! – Kate respondeu.


Dito e feito, dali a pouco chegavam Dave e um amigo, a linda Baby Anna correndo de braços esticados e gritando “Dinda! Dinda”, e o insuportável do Josh correndo na frente, braços igualmente pedintes e também gritando “Dinda”. Abracei Baby Anna e ignorei Josh, até perceber que Singe fechava a fila, logo depois da babá.


-Adivinhem o que eu trouxe! – Singe cantarolou, nos entregando folhas de papel.


-O quê? – Perguntei, animada demais, supercompensando.


-A nossa programação!


Entregou uma folha de papel para mim, outra para Kate, uma terceira para Anna, e guardou a de Renata com carinho enquanto esta não resolvesse seu problema no banheiro. A folha dizia:


10.00/11.00 – Diversões aquáticas. Local: Piscina.
11.00 – Almoço infantil. Local: Cozinha da sede.
12.00 – Almoço adulto. Local: Sala de jantar da sede.
13.00/14.00 – Livre.
14.00/15.00 – Caminhada ecológica pela propriedade.
15.00/17.00 – Jogos. Local: Sala de estar da sede.
18.00 – Jantar infantil. Local: Cozinha da sede.
19.00 – jantar adulto. Local: Sala de jantar da sede.
A partir das 20.00 – Conversas: assuntos diversos.


Assim que Singe terminou de ler o papel em voz alta, Kate levantou a mão, como se estivesse na escola.


-Tenho de sair da piscina às onze horas?


-Não, não, não! – Singe respondeu, sorridente. – Você não leu no alto da página? O fim de semana é para a aclimatação.


-Hã?


-Adaptação.


-Ah... E o que a gente vai fazer entre dezessete e dezoito horas?


Singe olhou para sua própria folha, confusa.


-Hum... Não sei. Acho que a gente pode continuar o jogo, se estiver divertido. Ou então fazer o que quiser.


Mal ela terminou de falar, foi a vez de Anna levantar a mão.


-Tenho de esperar as vinte horas para conversar?


-Não – Singe voltou a sorrir, de uma forma como quem diz “tolinha”. – Podemos conversar enquanto fazemos as outras atividades. Mas, se não houver tempo, eu reservei um horário específico para isso, com tira-gosto e drinques.


Logo, Renata se juntava a nós, desanimada e abatida.


-Recomendo que não entrem no quarto nas próximas horas – disse ela, à guiza de cumprimento. E, pegando a folha de papel que Singe lhe estendeu, perguntou o que era aquilo.


-A nossa programação – Kate respondeu.


-Mas não vou dar detalhes agora porque estou em meio a minha diversão aquática – Anna completou.


-Eu aceito sugestões, se vocês não concordarem com alguma coisa – disse Singe, o lábio inferior já tremendo.


Ao invés de ficar de coração partido como deveria, Kate me avisou que a minha filha estava prestes a ser jogada na piscina, e eu, a única amiga verdadeira que Singe tem no mundo, não pude lhe prestar solidariedade para salvar Angela dos braços do insuportável do amigo do Dave.


Mas é maravilhoso como, de uma forma ou outra, tudo se ajeita. Dali a instantes o papo tirou o foco da programação, Renata conseguiu um remédio para diarréia, e as crianças brincavam animadas na água. Da piscina, enquanto entretinha meus bebês e os protegia dos filhos intratáveis da Singe, ouvi Anna comentar os pormenores do seu tratamento, e começar uma discussão acalorada sobre ajudar ou não instituições com câncer.


-Isso é marketing – ela dizia. – Eu já fiz dez mil doações e não preciso aparecer na televisão com ar de Lady Di, dizendo que sou uma santa porque invisto 0,0005% dos meus milhões para ajudar o próximo. Aliás, nem tenho milhões. Estou desempregada.


-Eu adoro a Lady Di – Singe protestou. – E acho muito bonito que, tendo-se muito, use-se uma parte para ajudar os outros, sim.


-Podia começar ajudando o coitado do caseiro – Renata resmungou, mas, como foi em voz baixa e ela estava perto de mim, só eu ouvi.


-Você não entendeu. Eu não disse que não me dava ao trabalho de ajudar. Só disse que é ridículo veicular sua imagem a isso. No fundo, o que você quer é aparecer.


-Eu gravei um CD para ajudar o hospital de Ife sem a menor intenção de aparecer – Kate, que ficava visivelmente alterada, cortou. – Mas se veicular meu nome aumenta as doações, por que não?


-Aumenta as vendas também.


-Isso é efeito colateral, não é o objetivo.


-Não? Pois o que realmente importa para você são aqueles animais, e eu não te vejo fazendo CDs para organizações de proteção dos bichos.


-Não gravo CDs, mas faço doações.


-Anonimamente.


-Vamos falar de sexo! – Singe disse, de um surto, para tentar mudar o assunto.


-A Renata tem um vibrador de coelho! – Uni-me, com a mesma motivação.


-Mamãe, o que é um vibrador? – Josh perguntou para Singe.


Enquanto Renata me dava um beliscão que quase arrancou a minha pele, Singe gaguejava que era um aparelho para fazer massagem no pescoço, e Dave respondia que não, era um pinto falso para mulheres encalhadas. Renata agora me odeia, mas ao menos Kate e Anna riram e fizeram as pazes.



Gloucestershire, segunda-feira, 10 de agosto de 1999


13.30 – Livre.


Meus bebês dormiram. Eles foram acordados um pouco mais cedo do que estão acostumados pelo som de furadeira na “sede”, e passaram a manhã inteira enjoados, resmungando atrás de mim. Kate falou que, se foi ruim para nós, que imaginássemos para ela, já que o quarto sendo furado era ao lado do seu.


Não pude participar da Diversão Aquática por causa do enjôo dos bebês, e porque Renata estava lá, e me proibiu de me aproximar dela. Tédio. Acho que vou ver se Renata está sozinha para poder conversar com outras pessoas.


17.30 – Buraco da Programação que Singe esqueceu de preencher.


A caminhada ecológica foi bem curta, pois Kate torceu o pé e teve de ser levada ao pronto-socorro.


-Que idéia foi essa usar salto para caminha no mato? – Anna dizia, enquanto a enfiava no carro.


-Eu sempre uso salto!


As duas saíram trocando farpas, mas Anna ligou há poucos minutos para avisar que Kate está bem, embora com o pé engessado, e que elas vão aproveitar para passear um pouco pela cidade. Fico me perguntando se Kate não fingiu a torção para escapar.


Renata está conversando com Singe. Não posso chegar perto. Saco.


23.30


Viva! Kate e Anna ainda não chegaram, mas Renata voltou a falar comigo! Bom, ela disse que não podemos conversar, mas que não há mal em nos dirigirmos palavras civilizadas como “boa noite”, “você está pisando no meu cabelo”, e “onde você enfiou o esterilizador de mamadeiras”? Com isso, Singe pôde nos levar juntas para um passeio pelo pandemônio, enquanto a pobre babá olhava aquele mundaréu de crianças.


Singe está decidida mesmo a apagar qualquer traço do Mick da sua vida. Ela se mudou para outro quarto, e vai transformar o antigo em sala de jogos. Os das crianças também vão receber nova decoração assim que eles puderem voltar para Londres (eu posso me espremer com Renata na casa do caseiro, mas as aberrações não podem ser incomodadas) e ela pensa em deixar o andar inferior mais “feminino e aconchegante”.


-Tipo o que? – Perguntei, com dificuldades para visualizar.


-Tipo rosa.


-Ai. Meu. Deus – Renata, rainha do bom-gosto, gemeu.


-Você acha que isso pode afeminar o Dave e o Josh? – Singe interpretou errado o comentário, e resolvi me apegar à bóia que ela havia me lançado.


-Ah, sim! – Respondi.


-Ah, sim! – Renata fez o mesmo.


-E o charme da casa é o seu ar rústico!


-Isso, campestre.


-Lindo demais.


Ao que Singe optou por toras de madeira.

5 a 9 de agosto de 1999

Quarta-feira, 5 de agosto de 1999


Sinceramente, não sei por que me estresso tanto. No dia seguinte sempre acabo me sentindo uma idiota.


Renata trouxe a salada de batata e mais uma quantidade absurda de arroz e salada verde (vegetarianos se preocupam muito com o que vão comer em um churrasco), meus bebezinhos passaram o dia correndo pelo jardim com Baby Anna e mal se lembraram da minha presença, e Victor ficou enfiado dentro de casa com Dave e Josh, jogando videogame. E os rapazes, quem diria, realmente cuidaram do churrasco. É muito reconfortante saber que os meus amigos ainda sabem levar a vida com simplicidade.


Lyla, ao contrário do que eu imaginava, não estava arrasada com o fiasco da Espanha.


-É tudo um período de adaptação. Fui muito ingênua, Malu, achando que seria fácil. Mas o fato é que eles precisam me conhecer e se acostumar com a forma como as coisas funcionam comigo – ela deu um suspiro etéreo, apesar de que, na única vez que tentou pegar Baby Anna, esta saiu correndo e gritando para o meu colo.


-É... hum... são muitas mudanças.


-São! São, sim! – Lyla concordou, maravilhada. – É isso o que eu venho dizendo ao Mick. Mas, se continuarmos dando atenção e amor constante, eles vão ver que não sou a mãe deles, mas nem por isso eu os amo menos.


Nossa, eu os amo muito menos. Aliás, acho que só os amaria se os tivesse parido, e ainda assim tenho minhas dúvidas. Naquele momento, Eddie me chamou para mostrar o que já havia rascunhado para a música da Emily. Fui pegar o violão e passamos umas boas horas trocando idéias, interrompidos apenas por risadas distantes e fraldas sujas. Kate sentou-se no chão perto de nós, de pernas cruzadas e uma tromba enorme.


-Está tudo maternal demais para o meu gosto – ela resmungou, em dado momento. – Eu estou deslocada.


-Você não ficaria deslocada nem que estivesse em uma convenção de Testemunhas de Jeová – Eddie respondeu.


-É verdade – concordei. – Você converteria todo mundo só para ter o que conversar com eles.


-E eles tatuariam uns aos outros – Eddie continuou.


-E fariam sexo grupal – acrescentei.


-E depois fumariam um baseado.


Mas o bico da Kate crescia a cada nova frase, e no fim ela estava quase aos prantos.


-Eu vou ter que virar isso?


-Isso o que? – Perguntamos juntos.


-Uma... uma mãe de família? – Ela concluiu, com uma expressão que misturava asco e mágoa.


-Claro que não! – Amo crianças em geral, e não gostaria que qualquer uma delas fosse filha de Kate.


-Dá licença, Eddie – Kate se virou para ele, sem aviso prévio. Eddie olhou para ela bastante perdido, e Kate complementou: - Papo de meninas.


Expulso dessa forma, não lhe restou mais nada a não ser sair cabisbaixo e rejeitado para pegar mais cerveja. E Kate continuou sentada, de pernas cruzadas, me olhando de um jeito muito magoado. Quase pedi desculpas a ela por ter filhos.


-É crise por causa do casamento – falei, pois não tinha idéia do que mais dizer, apesar de ainda faltar nove meses. Mas, como tudo com Kate é grandioso, é bem provável que fosse crise, mesmo. – Não adianta querer se forçar a um papel que não é você.


-Odeio quando falam assim!


O problema da Kate é o seu ego astronômico, que a ajuda na maioria das vezes, mas que também lhe dá a obrigação moral de ser boa em tudo.


Mas talvez ela esteja mesmo certa e estejamos maternais demais. Acho que a culpa é minha. Quando estava na França e vinha visitá-los, eles pareciam sair o tempo todo e se divertir horrores. Depois que cheguei, parece que forcei o meu mundinho suburbano goela abaixo dos outros. Basta ver que a Kate vai casar e a Renata é mãe!


Kate respondeu que eu sou a criatura mais egocêntrica do mundo (sim, eu!), e que sempre me acho culpada de tudo. Segundo ela, é síndrome de filha única. Voltando ao seu problema, que nada tem a ver com a minha volta, todos cresceram e se tornaram adultos, e estão exigindo o mesmo dela.


-Vince agora quer ter filhos? – Perguntei, pasma.


-Não! Credo, não! Mas veja bem, ele também não queria casar, e agora eu estou... estou... noiva!!!!


-Mas você quer casar, não quer? – E espero sinceramente que queira, mesmo, pois os seus planos estão me tirando a paz.


-Eu quero porque ele quer. Acho uma babaquice e uma perda de tempo, mas se é importante pra ele e pra mim não faz diferença, vá lá. Só que, e se não for realmente importante pra ele? E se formos vítimas de uma conspiração mundial para virarmos caretas?


Medo! Será que Kate vai cancelar o casamento agora que eu consegui um treinador bom e que o Banzé não ataca mais quem se aproxima dele? Kate garantiu que não, que o casamento está de pé e que ela está até animada, mas não sei, não. Ela parecia tudo, menos feliz.



Quinta-feira, 6 de agosto de 1999


Foi tudo horrível. HOR-RÍ-VEL! Casa vazia, cama vazia, mesa de sinuca vazia. Quero morrer.



Sábado, 8 de agosto de 1999


Ainda quero morrer. Por dois meses achei que tinha uma vida normal, uma família normal, mas já virei viúva de marido vivo novamente. Só vou ver o Tom em setembro, quando formos encontrá-lo para o aniversário dos gêmeos. Um mês! UM MÊS INTEIRO!!!!


Como se não bastasse, ontem deixei um Victor completamente revoltado no aeroporto. Diz ele que me convenceu de que não queria ir à França, mas juro que não faço idéia de quando isso aconteceu, até porque não estava nem um pouco convencida. Ok, eu sou uma idiota. O Victor está plenamente adaptado, não quer passar tempo com o porco, eu tenho a sua guarda na justiça, o Jean-Claude me sacaneou e até queimou os meus fusíveis, e eu fazendo das tripas coração para eles manterem contato. Às vezes penso em deixar pra lá, mas quando for adulto Victor pode olhar pra trás, interpretar todo o episódio como rejeição, e ter de fazer terapia pelo resto da vida por simples falta de emprenho meu em fazê-lo passar tempo com o porco. Meu bebê pode ter todos os traumas do mundo, mas vou tentar diminuir os causados por mim ao mínimo possível.


Agora estou solitária e com tendências suicidas, mas Rosa voltou, tenho uma criança a menos em casa e vou arrumar as malas com calma para, amanhã aos primeiros raios de sol, partir para Gloucestershire.


5.00


Hmmm. O que será que o Tom está fazendo agora? Acho que vou comer uma barra de cereal.


5.15


Comi a barra de cereal e não estou nem um pouco satisfeita. Acho que vou tentar experimentar um chocolate diet.


5.17


Quem foi o corno filho-da-puta que decidiu que essa merda era chocolate? Quem??


6.02


Bom, não arrumei mala alguma, mas fiz grandes progressos. Em primeiro lugar, consegui contato com o Tom!!! E ele ainda está bem! E disse que também estava com saudades! E perguntou se aquele som ao fundo era a salsa da Rosa, momento em que inventei uma desculpa para desligar o telefone correndo.


Em segundo lugar, falei com a Wendy, que me deu o telefone da agência! Viva!!!


8.30


Não, não arrumei as malas, mas foi por um bom motivo. Renata estava torturada por viajar com a linda e doce Emily pela primeira vez, e eu a ajudei a fazer um inventário do que levar. Tirei de sua lista:


a) Cinco ursinhos de pelúcia;


b) Uma bola com a qual ela não sabe brincar e que é maior que ela;


c) Dez touquinhas;


d) Sete mamadeiras;


e) Metade da farmácia de emergência. Obviamente, apenas itens que não consistiam emergência alguma.


Mas, para lhe mostrar que não sou intransigente, deixei que ela levasse o talismã da sorte.


9.00


Crianças dormindo, cozinha arrumada, Renata acalmada, Tom contatado. Agora finalmente posso arrumar as malas.


9.20


Droga, a minha unha quebrou. Onde enfiei a porra da lixa?


9.30


Oba! Uma Linda Mulher está passando na TV!!



Domingo, 9 de agosto de 1999


CAOS! DRAMA! CAOS!!!


Acabei dormindo na frente da TV, não arrumei porra nenhuma, crianças com fome, Rosa de folga, roupas espalhadas, Renata ligando pela segunda vez para perguntar se eu não vou buscá-la! ARGH!!! O-DE-IO a Renata!!! Não arrumei as minhas coisas para ajudá-la a fazer o inventário dela, e agora ela ME chama de desorganizada! EU! A rainha da organização! EU!!!


ODEIO MUITOOO A MINHA VIDA!!!!

2 e 3 de agosto de 1999

Domingo, 2 de agosto de 1999


Não agüento mais o meu caos doméstico! Por que tudo acontece comigo? POR QUÊ????


A quatro dias do meu marido partir, eu estou:


a) Sem babá;


b) Sem empregada;


c) Sem sexo.


Ok, eu tenho sexo. Um sexo bem esquisito, porque o Tom ainda não me perdoou, mas parece que para os homens uma coisa não exclui a outra. Quando contei para a Renata, ela me veio com “homens não fazem amor, fazem sexo”.


-Qual a diferença?


-A diferença é que você não precisa ser uma das pessoas favoritas do Tom no momento para que ele queira fazer sexo, coisa que nunca vai acontecer com você, porque você faz amor.


-E você?


-Eu trepo com um coelho cor-de-rosa.


O que me leva a concluir que no momento eu tenho a mesma importância para o Tom que uma boneca inflável.


O problema não foi a nossa manhã de sexta arruinada. Bom, foi isso também, mas uma coisa puxa a outra e Tom acabou praticamente me mandando escolher entre ele e Rosa.


Como posso decidir entre o pai dos meus filhos e a Fabulosa Rosa? Como??


Tom diz que a Rosa é espaçosa demais. Que a Tina (sabia que isso seria jogado na minha cara mais cedo ou mais tarde) fazia o trabalho dela e ninguém nem notava que ela havia passado pelo apartamento, enquanto a Rosa fazia a vida de todo mundo girar ao seu redor, o que nem sempre é verdade.


-A minha vida não é nada sem ela.


-A sua vida é tudo sem ela – Tom respondeu rapidamente. – Você limpa a casa e faz comida do mesmo jeito, e ainda tem que resolver os problemas dela e daquela família maluca.


Injustiça!


Tudo bem que eu:


1) Comprei a cadeira de praia dela para depois lhe dar outra;


2) Lhe empresto dinheiro quase semanalmente, e nem sempre o recebo de volta;


3) A dispenso, sem descontos no seu salário, para cuidar dos mais variados tipos de emergência, desde um estouro no encanamento da sua casa até uma liquidação de roupas que seriam perfeitas para os seus netos.


O que Tom não percebe é que a Rosa, além de Fabulosa, é um amor, e nunca me pediu qualquer dessas coisas. Eu faço porque quero, e não é culpa dela se eu não posso vê-la chorando na minha cozinha que fico com o coração partido e quero resolver o problema. A culpa é desse sangue bretão frio e pouquíssimo solidário. O sangue latino é bem mais quente e não se sente explorado simplesmente por ajudar o próximo.


Com tudo isso, não dispensei a Rosa, mas lhe dei férias, obviamente remuneradas, até convencer o Tom ou ele viajar; o que acontecer primeiro.


Mas, na verdade, o que vem me tirando a paz de espírito e a fé na vida é a ausência da Magdalena. Dá até uma ânsia de vômito ao lembrar o que eu passei antes de encontrá-la. Não que eu seja uma Singe, que prefere cortar os pulsos a cuidar dos próprios filhos, mas...Caraca, os filhos da Singe voltaram da Espanha!


Mais tarde.


Liguei pra Singe, que contou, exultante, que as crianças o-di-a-ram (ênfase dela) a viagem.


-Odiaram como?


-A piranha disse pro Dave que não é saudável comer frango frito! – Singe, que odeia gritos, praticamente gritou. E, quase às gargalhadas, ela contou que Baby Anna se recusava a dormir longe dela, que Josh chamou Lyla de vaca com todas as letras, e que choveu metade do tempo que eles estiveram lá.


Então vamos ver se entendi bem. Ela estava feliz da vida por seus filhos terem sido insanamente infelizes durante uma semana inteira.


É, não há mais esperança de insanidade para Singe.


Vamos analisar coisas mais promissoras, então. Se a Renata disse que não queria ir a Gloucestershire porque tinha que entrevistar babás, isso só pode signficar que existem babás disponíveis no Reino Unido!


Mais tarde ainda.


Umpf. Renata falou que tem uma super agência toda poderosa, mas que eles só atendem crianças com síndromes.


-Por quê? – Perguntei, me sentindo muito discriminada por ter filhos normais.


-Porque é um serviço especializado, Malu. Peguei o telefone com uma das mães da clínica.


-Se a Emily vier para cá quando eu precisar sair, será que a babá cuida dos meus filhos também?


Renata não respondeu.


Odeio a minha vida.


E, com tantos problemas, não posso nem mendigar um pouco de carinho do meu marido, PORQUE NÃO TENHO NINGUÉM QUE FIQUE COM AS CRIANÇAS!!!



Segunda-feira, 3 de agosto de 1999


Viva!!!


Amo MUITO a minha vida!!


Ontem à noite descobri que Tom não estava puto comigo! Aliás, ele nem sabia por que cargas d’água estaria puto comigo. Quando levantei a questão da sexta-feira, ele respondeu que aquilo foi sexta, já estávamos no domingo, e ele achou que eu não estava falando direito com ele por estar de TPM. Decididamente, temos problemas de comunicação.


Também me lembrei que os meus filhos dormem. Não é incrível? Fiquei tão obcecada com a falta de babá que nem me toquei que sim, tenho horário livre para exigir amor e atenção do Tom, porque nove, no máximo dez horas da noite, já está todo mundo na cama. Há! E depois o Victor quer que eu mude seu horário de dormir. Hahaha.


E não foi só isso (sim, eu tenho uma vida perfeita)! Tentei aproveitar o bom momento para trazer Rosa de volta ao nosso convívio, o que não funcionou, mas Tom, criatura maravilhosa e observadora, perguntou:


-E a Wendy?


-O que tem a Wendy? – Falei, meio chocada, imaginando se teria cabimento pedir para uma mulher insuportável e com trigêmeos para cuidar dos meus filhos.


-Ela tem umas três babás, não tem?


Não sei se tem três babás, mas isso faria muito sentido se tivesse. Será que ela me emprestaria uma? Ou, melhor ainda, será que ela conheceria uma agência boa que não discrima crianças sem síndromes?


7.00 da noite.


Argh! Odeio a minha vida!


Acabei de descobrir que Tom marcou um churrasco! Sim, um chur-ras-co para amanhã! Para reunir o povo antes da viagem! E me avisa na VÉSPERA! Quando eu estou sem empregada!


Obviamente, não consegui contratar o churrasqueiro de um dia para o outro, mas Tom disse que não tem problema, eles (imagino que ele e os rapazes) cuidam disso. Tudo bem que eu tive de sair correndo para comprar comida e bebida, vou ter de fazer duzentos quilos de batatas (em um ato de protesto, só vou servir batata) e broto de alfafa para a Lyla, enquanto corro atrás de crianças porque NÃO TENHO BABÁ. E isso porque eu sou rica. Qual a graça de ser rica dessa forma? QUAL?

26 a 30 de julho de 1999

Segunda-feira, 26 de julho de 1999


Singe acabou me perdoando, graças a um truque baixo do qual não me orgulho nem um pouco. Eu a convenci que, tendo me tornado responsável pelo casamento de doido, eu precisava de alguém com o mesmo nível de loucura de quem roubar idéias. Ela entendeu perfeitamente. Para Singe, a organização de um evento justifica tudo, até trair as amigas. Singe também me desculpou quando prometi fazer compras com ela. Havia planejado passar o domingo com a minha linda família, mas não tinha como lhe explicar isso, principalmente quando seu marido a largou e ainda carregou seus filhos para a Espanha.


Resumo da ópera: acordei no domingo, servi café da manhã enquanto arrumava o almoço, deixei tudo separado em embalagens com etiquetas (não podia correr o risco do Tom dar curry para os meus bebezinhos), beijei muito meus lindos filhos, escutei uns dez “pára, mamãe, você está me babando” do Victor, e fui encontrar Singe no escritório de uma decoradora.


Duas horas e mil idéias de como se transformar uma casa em um pandemônio depois, fomos almoçar.


-Eu tirei uma bigorna das costas! – Singe suspirou, após dar um gole em seu bloddy mary e me dar a incômoda sensação que eu estava almoçando com Renata, e não com ela.


-Então me explique por que você quer redecorar a casa – pedi. Não era uma questão de trocar sofás e tapetes. Era como se mudar sem trocar o endereço.


-Estou tirando todos os vestígios do canalha da minha vida.


Justo.


-Além disso, prometi quartos novos para as crianças se eles fossem à Espanha.


?!? Como assim??


-Ah, Malu, nem eu agüento olhar para aqueles quartos, imagina os coitadinhos que têm de dormir ali todo santo dia.


-Mas, o quarto da Baby Anna é praticamente novo! – Lembrei. Também lembrei que os filhos da Singe são tudo, menos coitadinhos, mas preferi não dizê-lo em voz alta.


-Já que eu estou mudando os quartos dos meninos, não podia deixar o da Baby de lado. Eu ia traumatizar a minha filha.


Às vezes tenho certeza absoluta que, de todas nós, eu sou a única normal.


O plano era mais complicado que isso, pois, com a casa toda de pernas para o ar, Singe precisaria ficar fora, e por isso ela, os filhos, eu e as crianças iríamos para Gloucestershire.


-O Tom viaja dia seis! Eu não posso ir com você nos últimos dias dele em Londres.


-É claro que é depois que o Tom viajar, Malu. Não sou louca.


-E o Steve Lowe?


-Somos ficantes. Não viajamos juntos, nem o apresento às crianças.


Hum. Victor vai à França, mas os meus lindos bebezinhos e minha linda afilhada se divertiriam horrores na piscina. Isso até compensaria passar uns dias com as aberrações. Além da vantagem extra de eu me distrair e matar um tempo-sem-Tom. Argh, eu sou uma vergonha para as mulheres. Sou a criatura mais dependente do mundo.


-Poderíamos chamar a Renata e a Emily – falei, em um momento de súbita inspiração.


-Isso! – Singe literalmente bateu palmas. – Uma viagem de meninas e filhos! Que divertido!



Terça-feira, 27 de julho de 1999


Renata não achou a viagem de meninas e filhos tão divertida assim. Segundo ela, Emily tem compromissos com a terapia, ela planejava começar a entrevistar babás, e tomou chá da cara da Singe no último mês. Por fim, concluiu que Emily é um ser delicado demais para ficar cercada pelos filhos da Singe.


Apesar dos seus argumentos irrefutáveis, eu lhe contei a minha teoria. Singe está sozinha, surtada e se sentindo trocada e, como amigas, temos de lhe dar apoio nessa hora difícil, mostrando que continuamos ao seu lado e que gostamos muito mais dela do que da Lyla. Além do mais, eu preciso de suporte emocional nos meus primeiros dias sem o Tom.


-Umpf – Renata grunhiu.


-O quê?


-Malu, leva a mal não, mas você é dependente demais.


-Umpf – grunhi.


Odeio essa nova Renata. Ela costumava ser muito mais carente e dependente que eu. Quem é ela para me criticar? Ok, ninguém no mundo é mais carente e dependente que eu. Ainda assim, esperava que ao menos a minha tia fosse capaz de me dar um ombro amigo.


-Você não quer mesmo mais saber de homens? – Perguntei, sem conseguir esconder um certo fascínio.


-Nunca mais – ela respondeu imediatamente, com um ar insuportável de quem estava muito orgulhosa de si mesma. – A Emily supre toda a minha necessidade de amor, e comprei um vibrador para suprir a necessidade de sexo.


Por que? Por que a Renata faz isso comigo? POR QUEEE??


Não satisfeita, ela tirou do armário um coelho. Sim!!! Um CO-E-LHO! COR-DE-ROSA!! E começou a descrever o funcionamento e o que as orelhas FAZIAM!


Fiquei cega e surda pro resto da vida.



Quinta-feira, 29 de julho de 1999


Está tudo correndo bem por um lado, não tão bem por outro. Renata acabou topando ir se Kate fosse junto, e esta deu uns dez mil chiliques, disse que não tem sentido ir em uma viagem de meninas e filhos humanos quando ela só tem filhos caninos e felinos, e ainda por cima aguentar as aberrações louras. Renata explicou que eu ando dependente e carente (umpf) e que ela não vai me agüentar choramingando o tempo todo, por isso Kate tinha de lhe fazer companhia para que elas pudessem falar mal dos filhos da Singe e de mim (umpf de novo). Kate concordou se Anna fosse, pois ela precisava de alguém sem prole humana para trocar experiências e impressões, e com isso a minha primeira semana sem o Tom já está organizada.


O problema é o próprio Tom, que anda com uma cara emburrada sem tamanho. Só me falta ter uma crise conjugal nos nossos últimos dias. Credo! CREDO!!!!! Parece que vamos morrer.



Sexta-feira, 30 de julho de 1999


Ontem encostei o Tom na parede. Falei que temos mais uma semana (de vida? CREDO!!!), e que não tem cabimento ele me arrumar um bico justo agora, que eu NÃO sou carente nem dependente, mas que tenho as minhas necessidades, e que era uma tremenda sacanagem passarmos a nossa última semana (CREDO!!!) daquela forma.


-Então você lembrou que só temos uma semana? – Ele falou, depois de uns dez mil grunhidos.


-Se eu lembrei? É CLARO que eu lembrei! – Respondi, irritada. – E estou passando os dias tentando arrumar uma maneira de não morrer de saudades quando você viajar, e em retribuição você fica com essa cara pra mim. – Reza a lenda que nesse momento eu parei de falar com clareza e comecei a miar enquanto tentava segurar as lágrimas. Tom não se comoveu.


-E pra planejar a sua semana sem mim, você passa a última semana comigo com as suas amigas.


Hum. É verdade.


-Se eu já tivesse viajado, não faria a menor diferença.


Será possível que o Tom também é carente e dependente?


Liguei para a Madalena, e hoje eu e Tom vamos passar o dia na cama. Daqui a pouco ele acorda e vamos dar início às atividades! Viva!!!


2.00 da tarde. Na cozinha.


Merda.


Foi só eu trancar a porta, e me lembrei que a Madalena ainda não tinha chegado. Na verdade, quem me lembrou foi o Tommy, se esgoelando do lado de fora. Amo meu lindo filhinho, mas às vezes ele é insuportável.


Destranquei a porta, saí, levei Angela e Tommy para a cozinha, comecei a servir o café da manhã, dei uns dois berros com o Victor porque ele acha simplesmente impossível colocar o leite DENTRO da tigela, para ele é muito mais fácil entornar metade da caixa EM CIMA da pia, e finalmente Madalena chegou junto com Rosa.


Larguei tudo pela metade e voltei para o quarto, tranquei a porta, segundos antes do Tom começar a dar aquelas mexidas pré-despertar.


Tom finalmente acordou, me puxou para ele, começou a me dar beijinhos deliciosos no pescoço, no ombro, descendo a alça da minha camisola e beijando cada ponto que ia descobrindo, até que... Victor começou a bater na porta.


-Mamãe, você viu o Pokemon Gold?


Como assim??


-O que É Pokemon Gold? – Perguntei, perdida com a pergunta alienígena que ousava invadir meu sexo matinal.


-Um jogo de Game Boy. – Tom respondeu, recolocando a minha camisola no lugar.


-O quê?


-Aquilo que você chama de joguinho.


-Ah.


No fim, o próprio Tom tinha pego o Pokemon Gold E o Game Boy, segundo ele para passar o tempo enquanto eu não me lembrava que ele existia. Tom passou uns dez minutos revirando o quarto atrás da porra do joguinho, abriu a porta, entregou-o a Victor. Fizemos um levantamento para saber se havia mais alguma coisa das crianças no nosso quarto, e reiniciamos de onde paramos.


Bom, Tom voltou a tirar a minha camisola muito lentamente, dando aqueles beijos deliciosos pelos lugares que ia descobrindo, escorregando a língua pelo meu corpo até chegar à minha calcinha, tirando-a devagar e com abilidade, abrindo as minhas pernas e dando início ao que poderia ter sido um sexo oral da melhor qualidade, se eu não começasse a ouvir vozes alteradas no andar inferior da linda casa.


-Que porra é essa? – Perguntei, apoiando-me nos cotovelos.


-Deixa pra lá. – Tom respondeu, do meio das minhas pernas.


-Não, tem gente brigando.


-Tem dois adultos lá, Malu – Ele finalmente desistiu de me dar qualquer tipo de prazer.


-Tem dois adultos brigando. Espera.


Recoloquei a camisola mais uma vez e desci as escadas. Chegando a cozinha, vi que os meus três filhos olhavam fascinados Rosa e Madalena trocarem insultos em espanhol.


-O que aconteceu? – Perguntei, tentando simultaneamente tapar os ouvidos dos meus dois bebês, enquanto Victor, boquiaberto, ouvia Rosa dizer que Madalena estava cravando um punhal no seu peito. – O que aconteceu?! – Repeti, com mais urgência.


-Señora Malu, no puedo más trabajar aqui – Madalena se virou para mim, enquanto Rosa desmoronava, aos prantos, sobre uma das cadeiras.


-Mas... Mas...


-Voy llevar los niños a picina.


Como assim? Ela havia voltado atrás? Ela estava seqüestrando os meus filhos? Comecei a sentir palpitações e desmoronei ao lado da Rosa.


Enquanto Rosa uivava ao meu lado, Madalena explicou que ela estava trabalhando para mim hoje, mas que não poderia mais vir porque estava se mudando para o East End com o namorado (narração interrompida por um uivo particularmente dolorido da Rosa) e trabalharia com ele vendendo cosméticos. Queria dizer que me adorava, adorava os meus filhos, jamais me esqueceria, e se eu poderia lhe emprestar duzentas libras para que eles pudessem começar o negócio, que ela prometia me pagar no final de agosto.


Conclusão: Rosa ficou perturbada demais para trabalhar, estou fazendo o almoço e Tom não fala mais comigo.

19 a 24 de julho de 1999

Segunda-feira, 19 de julho de 1999


Adorei a festa de garotas, principalmente porque estava sentindo falta da Singe em eventos da turma. Fomos quase todas. Lyla, obviamente, nao pôde ser convidada, e Blondie não fala mais com ninguém depois que Singe a chutou da banda, além de Wendy, que nunca participou mesmo, e Renata, presente pela metade, pois não parava de ligar para o Eddie para checar se Emily estava bem.


Diga-se de passagem, Singe anda bem mais liberal e menos incomodada com o papo de sexo, e foi ela que me alertou que Tom está certíssimo, e que temos que transar em todos os aposentos o mais rápido possível, sendo que mesas também servem se o chão for incômodo demais.


-Camas? – perguntei.


-Não! Camas, não! – Sue falou. – Dá para transar na cama de qualquer hotel.


-Também dá para transar no chão do quarto do hotel.


-Mas não na mesa do hotel. A não ser que haja alguma no quarto.


-Parede serve? – Renata perguntou, quando desligou o celular pela décima vez. Emily e Eddie estavam sozinhos, e ela passou a noite checando os dois de cinco em cinco minutos.


-Ninguém transa na parede, pelo menos não de forma premeditada, e batizado de casa tem de ser pensado e planejado, principalmente com filhos – Kate explicou, e contou sobre o drama que foi trancar todos os seus cada hora em um quarto, para que ela e Vince pudessem tomar posse do apartamento preto.


Àquela altura, eu já estava me sentindo o ser mais ignorante do planeta. Eu não sabia sobre o teste da caneta, não sabia sobre a demarcação de território...


-O que mais eu não sei?


-Que tamanho é documento? – Anna falou.


-Tamanho não é documento! – Renata protestou. – O uso é que é importante.


E todas ficaram muito interessadas para saber se ela estava baseando o seu protesto no Eddie.


-Não, mas eu tenho uma lista extensa de ex-namorados, casos, rolos e babacas em geral. Não há um único tipo que eu não conheça – ela falou, com propriedade.


-E por falar em namorados – Kate aproveitou a deixa, virando-se para Singe: - O que está rolando entre você e o Steve Lowe?


Singe enrubesceu, ficando alguns tons acima das mexas rosa no seu cabelo.


-Estamos nos conhecendo...


-Clichê! – Anna falou, colocando o dedo na boca como se fosse vomitar. – Só falta dizer que vocês estão se curtindo.


-Estamos nos curtindo.


-Então é relacionamento? – Cindy perguntou.


-Não. É diversão.


-Singe, você precisa de um relacionamento.


-Não preciso! Não sou um estereótipo – ela respondeu, revoltada, e senti uma certa solidariedade, pois é assim que me sinto várias vezes. – Posso gostar de estar em um relacionamento, mas não, não é o que quero no momento, e muito menos com o Steve. Meu próximo marido vai ser contador e usar suéteres com losangos.


-Pare! – Anna protestou. – Não me mate de nojo que eu estou em recuperação!


-É sério – Singe se defendeu. – Se for para eu ter um relacionamento no futuro, quero alguém normal. Cansei da vida de esposa do rock.


-Todas nós nos cansamos, mais cedo ou mais tarde – Maggie falou, recebendo um olhar assassino de Sue. – Tantas festas e dinheiro acabam cansando, e a rotina faz falta.


-Muita falta – concordei, com toda a sinceridade do meu coração.


-Ai, credo, a rotina me mataria! – Disse Kate.


-Porque você e Vince estão em pé de igualdade – Maggie respondeu. – Vai ficar em casa enquanto ele roda o mundo e vai a festas com todo e qualquer tipo de celebridade para você ver.


O que foi um discurso muito bom, pois significa que eu não sou uma alienígena, afinal de contas.



Quarta-feira, 21 de julho de 1999


Criei coragem e olhei o calendário pendurado na porta do armário. Tom viaja dia seis de agosto. Daqui a quinze dias. Quero morrer.


Quinta-feira, 22 de julho de 1999


Estou em depressão. Na mais absoluta, desoladora, devastadora depressão. Liguei para a Renata em busca de solidariedade, e ela me mandou deixar de ser gueixa. Depois ficou com pena de mim e me convidou para ir com ela levar Emily à terapia.


9.00 da noite


Entramos em uma sala fofa, tão fofa! Toda em lindas cores de bebês, uma profusão de rosa e azul e amarelo e bichos de pelúcia de todos os tipos e tamanhos, e bancos que pareciam nuvens e tapetes coloridos. Emily era de longe, disparado, a criança mais linda do lugar, embora ela seja uma das mais lindas do mundo, e fico me perguntando se não é uma afronta às outras crianças levá-la à rua sem colocar-lhe uma máscara para não ofuscar os outros. Chegamos com a mochilinha rosa, o carrinho rosa, Emily toda rosa e vestindo um chapéuzinho duas vezes maior que a sua cabeça (coisa mais ma-ra-vi-lho-sa), e nos sentamos na sala cheia de crianças, algumas engraçadinhas, outras bem tristes.


-Não fique olhando, Malu! – Renata cochichava pelo canto da boca.


-Eu não estou olhando – eu cochichava de volta, olhando. Era irresistível. Havia crianças com síndrome de Down como a Emily, outras com problema de coordenação motora, algumas já grandes, que não conseguiam andar, falar, ou mesmo olhar para alguém sem ter que contorcer completamente o rosto. Havia crianças de todas as idades e todas as síndromes, algumas com mães, outras com babás, algumas queridas, outras não.


-Pelo amor de Deus, Malu – Renata rosnou. – Você está me fazendo passar vergonha! – Mas, antes que ela ameaçasse nunca mais me levar lá, fomos chamadas.


Fomos levadas até uma sala branca cheia de brinquedos coloridas e recebidas pelo fisioterapeuta, um homem alto e louro que nos lançou um sorriso cheio de dentes brancos.


-Olá, Emily! – Ele a pegou no colo e mal nos olhou. Enquanto colocava a minha linda priminha sobre uma bola enorme, fazia perguntas para Renata sobre a saúde e desenvolvimento gerais da Emily.


A cena, tentando organizar pensamentos para ver se tive uma alucinação:


· O homem era bonito;


· O homem era simpático;


· O homem babava a Emily;


· O homem usava roupas brancas, o que podia muito bem fazê-lo passar por médico;


· O homem não usava aliança;


· A Renata não lhe deu a menor bola.


É, definitivamente, eu estava alucinando.



Sexta-feira, 23 de julho de 1999


Na verdade, estou sendo antiquada e fútil. Quem disse que o mundo é feito de homens? Quem determinou que uma mulher solteira não pode ver um homem bonito e igualmente solteiro sem se interessar por ele? Quem falou que todo mundo está à caça de marido? Aliás, estou chocada em constatar que ando seguindo uma linha de raciocínio muito semelhante a da minha mãe. Agora vou abraçar a modernidade, encorajar a solteirice, e ficar feliz com a liberdade que vou ganhar com a viagem do Tom.


Hum. Ainda sinto uma ligeira vontade de morrer.



Sábado, 24 de julho de 1999



Calor insuportável. Quente demais pra levantar. Quente demais pra comer. Quente demais pra fumar. Quente demais para qualquer tentativa de convívio social.


Merda, telefone.


Hmm...


Era Lyla, dizendo que queria me mostrar os esboços da decoração com bambu. Eu a chamei para almoçar, saí correndo para o supermercado, pois parece que sua alimentação consiste quase exclusivamente de brotos de alfafa, e voltei a tempo de quase gritar de pavor ao ver Singe em minha sala de estar.


-O que você está fazendo aqui? – Perguntei, as entranhas geladas de pânico.


-Eu estou atrapalhando? Desculpe, eu devia ter ligado – Singe respondeu, a carinha magoada, mas eu estava apavorada demais para me sentir culpada.


-É... é... – comecei maniacamente, tentando desesperadamente pensar em uma desculpa.


-Mas eu queria conversar, a gente não tem mais se encontrado! E eu não entrei em detalhes sobre o Steve Lowe.


Que ótimo. Singe passou anos sem querer discutir a sua intimidade, e resolve fazê-lo justamente no dia em que convidei Lyla para almoçar.


-Assim? De repente?


-De repente o quê?


-De repente resolveu conversar?


Eu sei, fui bem grossa, mas era uma emergência.


-Não posso?


-Claro que pode! – Respondi rapidamente. Ainda amo a minha amiga Singe, e ela estava com um ar meio psicopata. – Aconteceu alguma coisa?


-Não – Singe respondeu com ar de que havia acontecido de tudo, e se sentou no sofá.


-Não mesmo?


-Ah, eu perdi as minhas amigas.


-Claro que não! – Larguei os brotos de alfafa em cima da mesa e fui me sentar ao seu lado. – Eu estou aqui!


-Não é a mesma coisa. Agora eu não posso participar de nada do que acontece porque vocês decidiram ser amigos da piranha, e não posso ao menos te visitar.


-Pode, sim! Você está me visitando, não está?


-Malu, você surtou quando me viu.


Foi mesmo, e, para piorar, a campainha tocou. A onda de pânico voltou e fiquei pensando se daria para esconder a Singe dentro do armário, ou melhor, esconder a Lyla, é a Singe que não pode ver a Lyla, mas não há armários no lobby, só o de casacos, e a Lyla é magrinha, deve caber, e começava a hiperventilar quando Kate entrou na sala.


-É você? – Perguntei, com um fio de voz, como em uma cena de filme de suspense de quinta categoria.


-Não posso te visitar? – Kate perguntou, incomodada com a minha reação.


-A Malu agora deu pra isso. A gente precisa marcar horário na agenda antes de aparecer.


Kate queria discutir o casamento de louco, e Singe queria contar detalhes da sua vida de adolescente, e entre uma coisa e outra acabei me esquecendo completamente dos brotos de alfafa, até que a campainha tocou, e dessa vez era a Lyla.


-Eu preciso ir – Singe se levantou, como se houvesse uma mola no sofá.


Logicamente, não podia insistir que ficasse, e fui acompanhá-la à porta, mais para checar se ela ainda me amava do que por educação.


-Está vendo, Malu? Perdi minhas amigas – Singe falou, gélida, quando chegamos à porta.


-Não perdeu, não! Eu prometi ajudá-la, mas você é minha melhor amiga eterna! – Respondi, implorando por sua amizade.


-Ela se infiltrou em tudo – Singe me cortou, já com lágrimas nos olhos. Não agüento ver Singe chorando. Não. Agüento.


-Imagina! Eu prefiro mil vezes você!


-Bom, volte para a sua visita – Singe respondeu, dura, virou as costas e foi embora.


Eu estava tão arrasada que esqueci que ainda tinha duas visitas na sala. Quando a lembrança retornou, tentei correr, mas era tarde demais. Lyla já havia me desmascarado, mostrando seus esboços para Kate.


-O que você acha, Malu? – Lyla perguntou, animada.


Hmm. Olhei para o chão de bambu, as toalhas de mesa de bambu, o biombo (?!) de bambu.


-É... está um pouco indígena, você não acha?


-Perfeito! – Kate gritou, batendo palmas.


-A idéia do bambu era lembrar o oriente, não uma taba – respondi, chocada.


-Mas tem a ver com o homem primitivo... – Kate.


-Então é idade da pedra? – Eu.


-Não, mas o oriente lembra o princípio da civilização. – Kate.


-Não, isso é África – Lyla palpitou.


-O início da civilização na África? Mas os índios sul americanos não migraram do oriente? – Kate.


-Mas a Lucy é da África – Lyla.


-Lucy do I Love Lucy? – Eu e Kate.


-O fóssil do primeiro ser humano – Tom, que acordou durante o debate e passava com um copo de café.


Consegui convencer Kate que já havia encomendado as toalhas de mesa, e que seria pobre DEMAIS colocar jogos americanos de bambu, mas o biombo ficou, sabe-se lá com que função. Deixei-as sozinhas e pedi que Tom ficasse com os gêmeos no jardim enquanto providenciava o almoço, ou seja, os brotos de alfafa e restos de comida variados. Quando voltei à sala, o assunto havia mudado completamente. Lyla narrava para uma Kate de semblante horrorizado que havia marcado uma viagem à Espanha com Mick e as crianças na semana que vem.


-Você não sabe o que está fazendo – Kate murmurou. – Eu e Malu tentamos ficar com eles durante uma tarde, e fomos expulsas pelo segurança.


-Eles só precisam de atenção – Lyla respondeu. – Uma semana recebendo amor constante e voltarão transformados.


-Ah, sim. Diga para ela, Malu – Kate falou, quando me viu.


Eu obviamente não disse coisa alguma, pois a) acho mesmo que eles precisam de atenção e amor constante; e b) a pobre da Lyla só está tentando acertar. Além disso, nada mais podia ser feito, já que as passagens estavam compradas, o hotel, reservado, e eles partirão amanhã de manhã.


Hum. Muito estranho que Singe tenha falado de tudo, menos disso.

14 a 18 de julho de 1999

Quarta-feira, 14 de julho de 1999


Consegui comprar um presente às pressas e, graças a Deus, eu já tinha reservado a Magdalena desde que recebi o convite. Aliás, foi graças a ela que me lembrei da festa, pois ela chegou cantarolando Donde está Angelita, Donde está Tommy-Tom, e eu quebrando a cabeça para me lembrar o porquê de ela estar na linda casa em plena terça-feira, até que veio a luz. Tirei o Tom da mesa de sinuca e voamos ao shopping antes de ir à boate cheia de adolescentes histéricas na porta. Achei que ia ser um saco como a outra festa que eu fui, mas, mal cruzamos a entrada, e demos de cara com... Singe!!!


-O que você está fazendo aqui? – Perguntei, chocada.


-Vivendo! Você sabia que é muito mais legal virar adolescente depois dos trinta? Nada de espinhas, licença para dirigir... Estou me divertindo!


-Que bom, mas... – Uma luz bateu e vi que Singe havia feito mechas cor-de-rosa no cabelo. Medo! – Eu nem sabia que você conhecia o Mike.


-Quem não conhece quem nesse meio? – Ela respondeu, enigmática. Para completar o horror, Steve Lowe chega e lhe entrega um copo de bebida, depois cumprimenta Tom e a mim. Enquanto os dois engrenavam em uma conversa, puxei Singe para um canto e perguntei que história era aquela, se eles estavam namorando, e o que diabos andava acontecendo com o mundo...


-Somos “ficantes”. Agora é assim que se fala.


-Hã?


-Estamos de rolo.


A Singe falando daquela forma me trouxe uma incômoda lembrança da Penny e as gatinhas que malham de biquini.


-Malu, cansei. Todo mundo viveu enquanto eu estava casada, e agora quem vai viver sou eu. Não é uma coisa ruim, é? – Ela pediu a minha opinião, tão fofa que me lembrou a Singre pré-mutação.


-Claro que não.


-Então, só estou fazendo o que o Mick fazia enquanto eu cuidava da casa e dos filhos dele, e sem cometer adultério.


Dali, Singe passou para a sua estréia junto ao Stress, e dos planos fabulosos que tinha em mente. Eu sou mesmo muito imbecil... Achando que Singe havia deixado de lado a sua mania de organizar grandes eventos só porque abandonou o casamento da Kate, mas na verdade ela apenas substituiu algo no qual era apenas uma ajudante pelo Grande Retorno do Stress. E, como sempre, estava brilhando em sua nova função:


· Já havia assinado contrato com a agente do Stress;


· Começariam a gravar a demo assim que Anna estivesse plenamente recuperada da cirurgia;


· Já havia duas gravadoras interessadas (a doença da Anna parece que ajudou a divulgação);


· Falou com Blondie e disse que ela só teria lugar na banda se fosse para uma clínica, Blondie não a levou a sério, e foi sumariamente chutada;


· Wendy também foi comunicada que o Stress continuará sem ela.


-Ela não pirou? – Perguntei, fascinada com a coragem e decisão de Singe, em total contraste com a minha covardia e indecisão quando era eu que tocaria o projeto.


-Não, ela tem trigêmeos, esqueceu? Quando se tem três bebês pequenos, apenas dez por cento do seu cérebro consegue focar em questões adultas – ela respondeu, como se aquilo fosse realmente um dado científico. – Bom, como Kate é famosa e você é um pouquinho, pensamos em vocês duas gravarem umas faixas conosco, já que não deixa de ser uma fusão Stress/Virgin, e as músicas, de qualquer maneira, são suas.


-São nossas.


-As letras são minhas, o resto é seu. O que você acha? Vai ajudar a divulgação.


-Legal! – Topei, animada. Aliás, me senti com dezoito anos. A parte boa dos meus dezoito anos, pelo menos.


Apenas no carro, voltando para casa, percebi que nao falamos sobre as aberrações nem sobre a minha linda afilhada.


Por falar em afilhada, fui hoje ao apartamento do Eddie saber como estava indo a terapia da Emily. Como Victor está fazendo um curso intensivo de sinuca com o Tom, levei apenas os gêmeos, que entraram em estado catatônico ao entrar no quarto da Emily. Parece que Eddie também contratou a firma de decoração dos palhaços. Renata havia saído para dar uma volta com a minha linda priminha e, enquanto se embolava no chão com Tommy e Angela, Eddie explicou que esse negócio de ser pai é uma viagem.


-Viagem?


-Tipo, a maior viagem! Cara, eu fiz uma menina! E ela respira!


-Que bom.


Na clínica, Eddie falou que, sem sombra de dúvidas, a Emily era a menina mais linda de todas. Eu, claro, concordei, mesmo sem ter visto as outras crianças. Que eles têm de deitar os bebês em colchões, exercitar pernas, braços, mostrar coisas coloridas.


-Mas ela ainda nem enxerga direito!


-É, vai entender.


Não perguntei ao Eddie se ele estava feliz, pois era completamente desnecessário. Acho que certas pessoas nasceram para desempenhar certos papéis. Eddie pode não ter nascido para ser marido, mas definitivamente foi feito para ser pai.


-Aliás, Malu, legal você aparecer. Me ajuda com uma música? Para a Emily?


-Claro! – Concordei, MUITO feliz. Diga-se de passagem, só tenho sido convidada para coisas maravilhosas.


-Ela só vai ser batizada quando terminar a turnê, o que é legal, porque quero fazer uma coisa diferente.


-Diferente, como?


-Não sei... diferente. As idéias vão surgindo, a gente vai discutindo.


Renata não demorou muito a chegar com Emily, que estava a coisa mais esplendorosa do universo em seu carrinho, com uma touquinha branca estilo século XXVIII, ao mesmo tempo antiga e fashion de matar, protegendo-a do sol. Por mal das dores, a tal da touquinha ainda tinha um laço cor-de-rosa, segundo Renata acrescentado por ela mesma, pois não aguenta mais as pessoas perguntando se a Emily é um menino. Passamos uns cinco minutos discorrendo sobre o desaforo das pessoas insensíveis que não notam que Emily exala feminilidade por todos os poros.



Sexta-feira, 16 de julho de 1999
Hoje eu recebi alta da Lisa.


RECEBI. ALTA. DA. LISA!!!


Sei que deveria estar feliz, mas estou com uma terrível sensação de perda e não quero mais escrever.



Domingo, 18 de julho de 1999


Ontem eu estava muito sorumbática, tentando achar problemas para ligar para a Lisa e dizer que preciso desesperadamente dela, quando Tom fez a sua famosa pergunta:


-O que é que tá pegando, Maria?


Expliquei, e ele disse que, se eu sinto tanto falta de terapia assim, é só ligar para outros psicólogos, que certamente ainda há maluquice suficiente em mim para alguém querer começar um tratamento. Umpf.


-Você quer abrir mais caixas e me ridicularizar? – Ele perguntou, para me alegrar.


-Quero!


Deixamos os gêmeos com a Rosa e subimos ao sótão que, em apenas três meses, já se transformou em uma mixórdia... Bom dizem que é para isso que sótãos servem, não é? Há uma infinidade de caixas de papelão e horríveis vestidos a la Lauren Santorini que tentei fazer, além dos trabalhos de escola do Victor, brinquedos quebrados dos gêmeos, e sabe-se lá que outro tipo de fantasma do passado se esconde por ali. Viva! Tenho uma linda casa com sótão horrível! Desafio qualquer um a me apresentar um lar mais perfeito.


Abrimos uma das caixas que ainda estavam fechadas, e Tom soltou um puta merda.


-Que foi? – Perguntei, em ligeiro pânico, achando que ele havia visto um rato ou uma barata.


-O meu livro – ele respondeu, tirando um calhamaço de folhas datilografadas de dentro da caixa. Já ia perguntar que livro era aquele, quando me lembrei: uma vez, antes que começássemos a namorar, ele falou que havia escrito um livro sobre uma menina como eu.


-Deixe eu ver.


-Nem pense nisso – ele tirou as folhas das minhas mãos estendidas.


-Ah, Tom, você disse que um dia me mostraria – reclamei.


-Quando?


-Em Paris. Quando a gente foi àquele festival em Saint Malo.


-Eu estava te chavecando. Não conta.


-Ah, por favor...


-Não, é ruim demais.


-Você sabe que eu vou ler, não sabe? Você não vai ter coragem de jogar fora, porque ruim ou não foi você que escreveu, vai esconder, eu vou passar os dias procurando, a casa vai virar uma bagunça, as crianças vão ficar largadas, e no final eu vou acabar encontrando.


Tom me analisou com aqueles olhos maravilhosos e por fim concluiu:


-Tem razão. – E me estendeu os papéis.


-Oba!


-Agora não.


-Por quê?


-Porque é ridículo e não quero que você leia na minha frente, e as crianças estão lá embaixo e não sabem que nós estamos aqui, e essa pode ser a única oportunidade da gente transar no chão.


-Por que a gente transaria no chão?


-Porque quando se compra uma casa ela só passa a ser sua depois que vc transa no chão de todos os aposentos.


-É? – Perguntei, perturbadíssima com a possibilidade da minha linda casa ainda não ser minha.


-É. Todo mundo sabe disso. Então o plano é o seguinte. A gente demarca o território no sotão, e vai movendo aos poucos, conforme as oportunidades surgirem.


-Eu não vou transar no chão do quarto das crianças.


-Tá, o quarto das crianças continua sendo delas. Então... – Ele tirou as folhas da minha mão, com aquele sorriso malicioso e delicioso. - ... eu ainda não vi a sua borborleta com pouca luz.


Hmmm.


Então o sótão agora é definitivamente nosso. E hoje de manhã transamos no chão do quarto. Oba, já tenho dois cômodos da linda casa!


Hoje à noite tem festinha de garotas na Anna, que está com febre de cabana e meio cansada de ficar trancada com o Chris. Mais notícias amanhã.

9 a 13 de julho de 1999

Sexta-feira, 9 de julho de 1999
Ai, que nervoso.


E o raio da Jackie trabalhando, minhas amigas do outro lado do Canal da Mancha, e ninguém para conversar.


Levei as crianças à piscina do hotel, onde elas puderam extravasar a energia e, eu, a minha ansiedade. Funcionou para elas, para mim, nem tanto. Tom chegou no meio da tarde, mas não pudemos conversar porque, bem, estávamos rodeados de crianças. Depois veio o jantar, a televisão e, finalmente, a cama.


Tom não me facilita a vida e não deu dica alguma. Portanto, àquela altura, eu já havia pensado em várias possibilidades:


1) Jean-Claude ficou ofendido com a insinuação de Tom e o expulsou do apartamento;


2) Jean-Claude confirmou a insinuação de Tom e lhe concedeu a paternidade do Victor;


3) Jean-Claude confirmou a insinuação de Tom e os dois saíram no braço;


4) Jean-Claude confirmou a insinuação de Tom, os dois saíram no braço, a namorada artista plástica chamou a polícia, Tom pagou fiança e foi solto;


5) Jean-Claude não estava.


Como sempre, não aconteceu nada como eu imaginei.



A História de Tom e Jean-Claude



Tom, que até é um cara sensato, explicou para um Jean-Claude muito surpreso pela visita o porquê de estar ali. Não disse que achava que Jean-Claude havia se cansado do brinquedo, mas explicou que estava notando uma certa distância entre os dois, e que Victor estava magoado e se perguntando qual teria sido o motivo.


-E você veio aqui para me cobrar isso?


E Tom, cara sensato, respondeu:


-Olha, sei que você não gosta de mim, também não gosto de você, e nós dois temos os nossos motivos. Mas somos ambos pais do Victor, somos importantes para ele, e acho que isso tem de ser resolvido entre a gente, sim.


-O distanciamento é natural – foi a resposta do Jean-Claude. – Estamos em países diferentes, Victor está crescendo, mudando os interesses. Ele também tem sido bastante mimado, o que torna a sua estadia aqui menos agradável.


Tom, ainda sensato, pediu exemplos.


-Ele não gosta de dividir o quarto com o Michel, quer passear o tempo todo, quer coisas caras que não podemos comprar. Além disso, o melhor amigo dele se mudou, e ele fica entediado em casa.



-Ou seja, nós transformamos o Victor no Dave! – Interrompi, arrasada.


-É claro que não. Isso é coisa do velho, para jogar a culpa em cima da gente.



-Eu não posso dar a mesma atenção – Jean-Claude continuou. – Agora tenho um enteado pequeno e um bebê. E será que não é disso que ele sente falta? De não ter a mesma atenção de quando era filho único? Eu também me ressenti, sabe? Venho perdendo progressivamente as férias, falo pouco com ele. É natural.


Então chegaram a um impasse, foi a conclusão do Tom, pois Victor não se sente mais atraído para visitar Jean-Claude, e Jean-Claude se acha impossibilitado de criar os atrativos. Tom (de novo: sensato) pediu que Jean-Claude ao menos ligasse mais vezes, mostrasse mais presença, para que Victor não ficasse chateado.


-Aí a coisa ficou feia – disse Tom.


-Ai, meu Deus!


-Ele acha que um pai que ficou distante durante sete anos não tinha o direito de o chamar de ausente, eu respondi que não sabia da existência do Victor, e ele falou que, se você preferiu não me contar, era porque devia ter os seus motivos.


-E você saiu no braço com ele?


-Claro que não. Tinha uma criança e um bebê no apartamento, e eu falei que não ia bater nele. Pedi que pensasse no assunto e vim embora. Odeio aquele velho.


Eu também.



Sábado, 10 de julho de 1999


Hoje foi a festa de aniversário da Sabine. Não foi lá uma grande festa. Só tinha adultos, Luc passou o tempo todo jogando videogame com Victor e Tom, Sabine estranhava todo mundo e chorava o tempo inteiro, e não conseguimos uma única foto decente dela durante o parabéns. Eu teria cortado os pulsos, mas Jackie é muito zen e disse que é assim mesmo, que ano que vem Sabine estará maiorzinha, terá amiguinhos e aproveitará mais a festa. Adoro ter amigos sábios.



Londres, Domingo, 11 de julho de 1999


De manhã passamos no Jean-Claude para dar uma última olhada em Hugo, e cá estamos nós, desempacotando coisas (ok, ok, eu estou desempacotando coisas. O resto da família não está nem aí).



Segunda-feira, 12 de julho de 1999


Depois da ginástica, manquei e gemi até o apartamento da Lyla, que credo, credoooo, é a coisa mais estranha do mundo. Um cheiro de incenso de matar, panos no lugar de portas, uma confusão de tralhas de fazer inveja às caixas de lixo histórico do Tom. Ao menos, fizemos vários avanços. Ela me disse que existem lírios japoneses e orquídeas japonesas, só são caros e difícieis de achar (há, novidade. Nada no casamento da Kate é barato e facilmente localizável), mas que ela vai falar com seu amigo Kenji, e ele pode dar uma mãozinha.


Viva a Lyla! Viva o amigo Kenji!


De lá, fui comprar o material de primeiro dia de terapia da Emily. Comprei uma linda mochilinha rosa e minúscula, uma linda toalhinha rosa e minúscula (não sei se ela vai precisar, mas era um abursdo de maravilhosa), uma linda mamadeira de água rosa e minúscula, e lindas meinhas rosas e minúsculas.


-Você sabe que ela não vai fazer ginástica, não sabe? – Renata perguntou, olhando os presentes.


-Ah, mas são lindos!


-Isso, são.


Elas estavam de volta ao apartamento, pois parece que Eddie também quis estrear o seu quarto da Emily e, além disso, a casa dele é bem maior e acomodava melhor a Singe, que só por mal das dores desapareceu.


-Sem deixar rastro?


-Claro que não, Malu, como você é trágica! Agora ela caiu no mundo.


-Como assim?


-Tá saindo, aproveitando a solteirice. Deixa ela. De qualquer forma, só viemos pegar umas coisas, e vamos ficar baseadas no apartamente do Eddie até ele viajar. Passe lá amanhã.


Hmmm. Londres não caiu, mas mudou muito durante a minha ausência.


11.30 da noite.


O dia terminou sendo bastante cheio. Fiquei sabendo, através de Anna, que Singe topou tocar a releitura do Virgin com o Stress. Não que Anna possa tocar no momento, claro. Com a Singe propriamente dita não consegui falar, mas parece que ela reformulou o guarda-roupa, resolveu investir em um retorno bombástico do Stress, e apareceu no The Sun, dando uns amassos com ninguém mais, ninguém menos que Steve Lowe, o roqueiro quarentão ex-decadente com quem faço uns trabalhos de vez em quando por intermédio do... Tarã... MICK!


Depois do jantar, Kate esteve aqui, desanimada, drenada, e, segundo ela, com mais cinco castiçais comprados em Manchester.


-Eu não venci – ela disse, largada no lindo sofá da minha linda casa.


-Hã?


-Você disse que eu venci a bruxa porque o Vince me pediu em casamento, mas eu não venci. Ela estava mais atacada que nunca.


Kate passou o final de semana ouvindo piadinhas sobre a sua cerimônia de casamento e casos de divórcio de vizinhos. O pior é que, do jeito que vão as coisas, piadas sobre o casamento maluco dela é o que não vão faltar.


-O que mais você fez, Malu?


-Bem... Nada, eu estava em Paris. Mas descobri que existem lírios e orquídeas japoneses.


-Maluzona, meu casamento tem que ser PERFEITO! PER-FEI-TO! A megera vai estar na primeira fila, prestando atenção a todos os detalhes!


Ai, céus, e por alguns motivos:


· Como se já não fosse um casamento difícil de se arrumar, ainda tenho essa pressão;


· O ideal seria que a megera não prestasse atenção a detalhes;


· Além de arrumar castiçais e a casa de festa, eu não fiz absolutamente nada.


-Mas temos um ano ainda – tentei acalmar Kate.


-Não, temos dez meses. É pouco! É muito pouco!


Talvez seja mesmo.



Terça-feira, 13 de julho de 1999


Estive com três treinadores de animais. Dois deles riram da minha cara. O segundo deu pulinhos (era gay) e disse que adora desafios.


-É um gato velho, banguela e caolho.


-Não importa – e ele bateu palminhas também.


Como ele é apenas medianamente conhecido, acho que está vibrando pela possibilidade de trabalhar com Kate (todo gay adora uma perua) e, de brinde, ficar famoso.


Também estive com vários padres, e todos riram de mim (bom, nem todos, mas sei que os que não riram na minha frente esperaram eu sair para rir pelas minhas costas). Os que me levaram a sério (foram poucos, mas riram logo que saí assim mesmo) disseram que não se importariam de dividir a cerimônia com um outro padre que soubesse português, mas não com um monge budista, e que os druidas não existem mais. Liguei para a Lyla para checar, e ela disse que é bem provável que estejam certos, mas que ela conhece uma bruxa Wicca, e talvez ela não pudesse celebrar o casamento com o padre, mas ficaria muito feliz em participar da festa. Sobre o Kenji, ele foi passar o verão na Turquia, mas ela me dará notícias sobre as flores assim que ele voltar. E, aliás, bambu também é oriental.


-Mas não é muito decorativo...


-Depende. De repente a gente pode fazer algumas coisas legais. Vou fazer uns desenhos e depois eu te mostro.


Ai, que dor de cabeça.


Puta merda! O aniversário do Mike Amos!